• Revoluções globais

    Lançamento do satélite Syncom há 50 anos deu início à jornada que transformou o mundo

    06 de agosto 2013

    Pat McGinnis

    Em 1961, durante o Salão Aeronáutico de Paris, dois cientistas da Hughes Aircraft Co. subiram até o topo da Torre Eiffel para uma sessão de fotos. Mas não uma sessão de uma das cidades mais bonitas do mundo.

    Na verdade, quem tirou as fotos foi a imprensa. Os dois cientistas – Harold Rosen e Thomas Hudspeth – estavam apresentando o protótipo de um pequeno satélite de 71 centímetros de diâmetro.

    Dentre os presentes, um espectador mais cético teria dito que o topo da Torre Eiffel seria provavelmente o mais alto que o satélite subiria.  

    Mas, 50 anos atrás, no dia 26 de julho de 1963, o Syncom II foi colocado em órbita – e abriu caminho para uma nova era, a era da comunicação global baseada em satélites espaciais. Hoje, seus descendentes fazem com facilidade o que teria sido inimaginável em 1961, como monitorar o clima, fornecer entretenimento global 24 horas por dia, etc. E muitos desses satélites pioneiros foram projetados e construídos pela Boeing, cuja divisão de satélites tem origem na Hughes Aircraft.

    “O Syncom deu início à nossa jornada”, disse em 2012 Craig Cooning, vice-presidente e diretor geral da Boeing Space and Intelligence Systems, ao discursar durante um almoço em Paris. 

    Um protótipo de engenharia do Syncom está  em exposição na fábrica de satélites da Boeing  na cidade de  El Segundo, Califórnia, onde no passado eram fabricados os automóveis Nash Rambler. Em 1961, a planta automotiva foi adquirida pela Hughes Space and Communications, criada por Howard Hughes a partir de sua empresa de aeronaves. A Boeing adquiriu a Hughes Space & Communications em 2000.

    O Syncom nasceu na Hughes Aircraft, instalada nas proximidades de Culver City, na Califórnia.

    No final de 1958, aproximadamente um ano após o lançamento do Sputnik, o primeiro satélite do mundo, e logo após um dos maiores programas da Hughes Aircraft – o desenvolvimento de um sistema avançado de radar – ter sido engavetado, Rosen foi desafiado pelo diretor de seu departamento a encontrar um novo projeto.

    Rosen conversou com diversos colegas, entre os quais, Hudspeth, um engenheiro de comunicações, que mencionou a precariedade das comunicações internacionais – o custo era alto, a programação, complexa, e a transmissão de programações transoceânicas, impossível. O mais importante, porém, era que os satélites de comunicação eram colocados em órbitas baixas da Terra, o que exigia enormes antenas terrestres para monitorá-los ao longo de sua trajetória. 

    Mas, um satélite de comunicação bem projetado, em uma órbita geoestacionária em torno do Equador, 35.790 quilômetros acima da Terra e viajando a 11.070 quilômetros por hora (6.878 mph), estaria sincronizado com a velocidade de rotação diária da Terra. O satélite permaneceria em órbita, em um ponto fixo. Rosen, Hudspeth e Donald Williams, outro cientista da Hughes, começaram a projetar o satélite que passaria a ser conhecido como Syncom, abreviação do inglês “synchronous communication” ou comunicação síncrona.

    Um dos principais desafios era descobrir como manter o satélite estável, em órbita, sem recorrer a um complexo sistema de propulsores, pois isso exigiria a presença de quantidades imensas de combustível a bordo e aumentaria muito o peso.

    Foi então que Rosen se lembrou de seu tempo na faculdade e das discussões que ele teve sobre a dinâmica da estabilização por rotação, observada em uma bola de futebol, um projétil de artilharia e outros objetos. O Syncom seria projetado para rodar em torno de seu próprio eixo.

    Williams inventou e patenteou um dispositivo que controlaria o satélite com a vibração de um único propulsor, em sincronismo com sua rotação.

    O protótipo ficou pronto em meados do primeiro semestre de 1961 – mas sem compradores. Foi por isso que Hughes decidiu exibir o satélite no Salão Aeronáutico de Paris. Em agosto, não muito tempo após o evento, a Hughes Space and Communications fechou um contrato de 4 milhões de dólares com a NASA e o Departamento de Defesa dos Estados Unidos para construir três satélites de comunicação geossíncronos.

    O primeiro Syncom foi lançado em Cabo Canaveral, no dia 14 de fevereiro de 1963. Todos os sistemas estavam funcionando até que o motor a bordo do satélite foi acionado para colocar o Syncom em sua órbita final. Nunca mais houve notícias do Syncom.

    O Syncom II foi lançado no final de julho de 1963. Dias depois, o presidente John F. Kennedy ligou, da Casa Branca, para o primeiro-ministro da Nigéria, Abubaker Balewa. Foi a primeira ligação telefônica via satélite com comunicação em duas vias entre chefes de Estado da história.

    Um ano depois, o Syncom III foi colocado em órbita geossíncrona sobre a linha do Equador e transmitiu, na sequência e com a ajuda do Syncom II, a cobertura ao vivo dos Jogos Olímpicos de Verão de Tóquio de 1964.  

    Durante o primeiro ano em que o Syncom II esteve em órbita, a NASA organizou várias demonstrações públicas de suas capacidades. Uma delas ocorreu na fábrica da Hughes Aircraft. “Tínhamos um terminal portátil e um soldado que estava em uma base do exército, tinha outra”, contaria Rosen posteriormente. “Minha esposa disse, ‘Alô.’ E o soldado respondeu ‘Alô.’ Ela deixou cair o telefone e disse, “Meu Deus, Harold, funciona!’”

    De fato. O Syncom II dera início a uma revolução na comunicação global.

    E deu início também aos 50 anos de inovação em satélites da Boeing e das empresas que a formaram.